Morfologia aplicada à leitura textual
A Morfologia aplicada à leitura textual é o estudo da estrutura, formação e classificação das palavras em Língua Portuguesa, com foco na sua contribuição para a compreensão e interpretação de textos.
Compreender a morfologia é fundamental para desvendar o sentido de palavras desconhecidas, identificar relações semânticas e gramaticais, e perceber nuances que enriquecem a interpretação textual.
Essa habilidade é especialmente valiosa em exames como o ENEM e outros vestibulares, onde a interpretação de texto é uma competência central.
Características
As principais características da morfologia aplicada à leitura textual são:
- Foco na análise da estrutura interna das palavras.
- Reconhecimento de prefixos, sufixos, radicais e desinências.
- Identificação da classe gramatical das palavras (substantivo, verbo, adjetivo, etc.).
- Percepção de como a alteração morfológica (flexão, derivação) muda o sentido e a função.
- Compreensão do vocabulário pelo estudo dos elementos mórficos.
Estrutura da palavra
A estrutura de uma palavra é composta por elementos mórficos que, ao se combinarem, formam unidades de sentido.
- Radical: é a parte da palavra que contém seu significado básico e que não se altera. Ex: pedra, pedreiro, pedregulho.
- Afixos: elementos que se ligam ao radical.
- Prefixo: afixo colocado antes do radical. Ex: infeliz, refazer.
- Sufixo: afixo colocado depois do radical. Ex: felizmente, casamento.
- Desinências: elementos que indicam as flexões das palavras.
- Nominais: indicam gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) de nomes. Ex: meninos, meninas.
- Verbais: indicam número, pessoa, tempo e modo dos verbos. Ex: cantavamos, comerão.
- Vogal Temática: vogal que se liga ao radical, preparando-o para receber as desinências. Ex: amar, comer, partir.
Classes gramaticais e leitura
O reconhecimento das classes gramaticais é um pilar da morfologia na leitura textual, pois cada classe desempenha um papel específico na construção do sentido.
Substantivo
O substantivo nomeia seres, objetos, lugares, sentimentos.
Na leitura, identificar substantivos ajuda a:
- Reconhecer os sujeitos e objetos das ações.
- Compreender o tema central de um parágrafo ou texto.
- Diferenciar conceitos abstratos de concretos.
Exemplo:
A beleza da paisagem cativava os olhos do viajante.
Adjetivo
O adjetivo caracteriza o substantivo, acrescentando qualidades ou estados.
Sua função na leitura é crucial para:
- Entender as descrições e detalhes fornecidos pelo autor.
- Captar o tom (positivo, negativo, neutro) e a intenção do texto.
- Perceber nuances e aprofundar a compreensão das informações.
Exemplo:
A casa antiga e abandonada revelava uma atmosfera misteriosa.
Verbo
O verbo indica ação, estado, fenômeno da natureza. É o coração da oração.
A análise do verbo na leitura permite:
- Identificar as ações e os agentes.
- Compreender a temporalidade dos eventos (passado, presente, futuro).
- Distinguir o modo (indicativo, subjuntivo, imperativo) e a atitude do enunciador.
Exemplo:
Os alunos estudaram muito e alcançaram bons resultados.
Advérbio
O advérbio modifica o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, indicando circunstâncias (tempo, lugar, modo, intensidade).
Na leitura, os advérbios são importantes para:
- Entender as condições e o contexto em que as ações ocorrem.
- Perceber a intensidade ou a maneira como algo é dito ou feito.
- Captar a posição do autor em relação ao que está sendo comunicado.
Exemplo:
Ele falava lentamente, mas completamente articulado.
Pronome
O pronome substitui ou acompanha o substantivo.
Sua importância na leitura reside em:
- Evitar repetições desnecessárias, garantindo a coesão textual.
- Identificar as referências a seres, objetos ou ideias já mencionados.
- Compreender quem fala, a quem se fala e sobre o que se fala.
Exemplo:
Maria leu o livro. Ela gostou dele.
Formação de palavras na leitura
O processo de formação de palavras, por derivação e composição, é uma ferramenta poderosa para ampliar o vocabulário e deduzir significados.
Derivação
A derivação ocorre quando uma palavra nova é criada a partir de uma já existente (radical), pela adição de afixos ou por outros processos.
- Prefixal: adição de prefixo. Ex: desfazer, reler.
- Sufixal: adição de sufixo. Ex: felizmente, livraria.
- Parassintética: adição simultânea de prefixo e sufixo. Ex: entristecer.
- Regressiva: redução da palavra. Ex: buscar -> busca, chorar -> choro.
- Imprópria: mudança de classe gramatical sem alteração formal. Ex: o jantar (verbo > substantivo).
Exemplo de aplicação na leitura:
Ao ler a palavra “ilegalidade“, mesmo sem conhecê-la previamente, o leitor pode inferir seu significado.
–
i-(prefixo de negação)–
legal(radical, referente à lei)–
-idade(sufixo que forma substantivos abstratos)Assim, ilegalidade significa a “qualidade do que é contra a lei”.
Composição
A composição forma novas palavras a partir da união de dois ou mais radicais.
- Justaposição: os elementos se unem sem perda de fonemas. Ex: guarda-chuva, passatempo.
- Aglutinação: os elementos se unem e há perda de fonemas. Ex: planalto (plano + alto), embora (em boa hora).
Exemplo de aplicação na leitura:
A expressão “girassol” é entendida pela união dos radicais gira (de girar) e sol, remetendo à planta que se move conforme a posição do sol.
Exercícios com Gabarito
1. (ENEM-2022)
“O uso de prefixos e sufixos é uma estratégia comum na Língua Portuguesa para a formação de novas palavras e para a alteração de seus sentidos. A palavra “desvalorização”, por exemplo, carrega em sua estrutura morfológica elementos que indicam um processo de sentido inverso ao valor.”
Considerando o trecho, qual a análise morfológica correta da palavra “desvalorização”?
- a) “des-” é radical, “valor” é prefixo, “-ização” é sufixo.
- b) “des-” é prefixo, “valor” é radical, “-ização” é sufixo.
- c) “des-” e “-ização” são radicais, “valor” é sufixo.
- d) “desvalor” é radical, “-ização” é desinência.
- e) “desvaloriza” é radical, “-ção” é sufixo.
Resposta: Alternativa b: “des-” é um prefixo que indica negação ou ação inversa, “valor” é o radical que contém o sentido principal, e “-ização” é um sufixo que forma substantivos a partir de verbos, indicando o processo ou resultado de algo.
2. (FUVEST-2021)
No poema “No meio do caminho” de Carlos Drummond de Andrade, o verso “No meio do caminho tinha uma pedra” é um clássico. A repetição da palavra “pedra” ao longo do poema reforça sua centralidade.
Em relação à palavra “pedra” e sua família de palavras, assinale a alternativa INCORRETA:
- a) “pedregulho” é uma derivação sufixal que indica uma pedra pequena ou conjunto de pedras.
- b) “pedreira” é uma derivação sufixal que designa o local de extração de pedras.
- c) “apedrejar” é uma derivação parassintética, formada pela junção de prefixo e sufixo ao radical “pedra”.
- d) “empedrar” é uma derivação prefixal e sufixal, mas não parassintética, pois o prefixo pode ser removido sem prejuízo.
- e) “petrificar” é um verbo que indica o ato de transformar em pedra ou ficar como pedra.
Resposta: Alternativa d: A palavra “empedrar” é um exemplo de derivação parassintética, pois a retirada isolada do prefixo “em-” (pedrar) ou do sufixo “-ar” (empedr) resulta em formas não existentes na língua portuguesa, indicando que prefixo e sufixo foram adicionados simultaneamente ao radical “pedr-“.
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