Literatura no ENEM: temas recorrentes
A literatura no ENEM é um componente essencial da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, exigindo dos estudantes não apenas a leitura atenta de textos, mas também a compreensão de contextos históricos, características estilísticas e a capacidade de interpretar diferentes manifestações artísticas.
Entender os temas recorrentes da literatura no ENEM é crucial para uma preparação eficiente, pois permite focar nos conteúdos mais cobrados e nas habilidades de análise textual que a prova valoriza.
Este guia abordará os principais movimentos literários, autores e temas que costumam aparecer nas questões, oferecendo uma visão estratégica para o estudo e a resolução das provas.
Movimentos Literários Recorrentes
Os exames do ENEM frequentemente abordam autores e obras de diversos períodos da literatura brasileira, com um foco especial nos movimentos que representam marcos importantes na nossa formação cultural e social. Conhecer esses movimentos é fundamental.
Romantismo
O Romantismo, surgido no século XIX, é um dos movimentos mais explorados no ENEM. Caracterizado pela subjetividade, sentimentalismo e idealização, suas obras retratam o nacionalismo, o indianismo, o amor platônico e a evasão da realidade.
Exemplo:
“Ó minha amada, que os céus de anil
Cobrem de flores gentis e belas,
As tuas faces são cor de neve,
E os teus olhos, estrelas.”(Trecho de “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias)
Neste trecho, percebe-se o tom lírico, a idealização da pátria e da mulher, características marcantes do Romantismo.
Realismo e Naturalismo
Esses movimentos, da segunda metade do século XIX, contrastam com o Romantismo ao buscar a objetividade, o retrato fiel da realidade e a crítica social. O Realismo foca na análise psicológica dos personagens e na crítica aos costumes burgueses, enquanto o Naturalismo enfatiza o determinismo biológico e social.
Exemplo:
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”
(Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis)
A ironia, a crítica social e a visão cética sobre as relações humanas são evidentes, características do Realismo machadiano.
Modernismo
O Modernismo brasileiro, iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922, é um dos períodos mais relevantes para o ENEM. Divide-se em fases, mas todas buscam a renovação estética, a valorização da cultura nacional e a ruptura com o passado. A primeira fase, em especial, com sua irreverência e busca pela identidade brasileira, é constantemente cobrada.
Exemplo:
“A onça
não é o bicho que penso:
não tem
essas pintas
que a gente
desenha
no caderno.”(Trecho de “A onça”, de Oswald de Andrade)
A linguagem coloquial, a valorização do cotidiano e a busca por uma identidade brasileira são traços modernistas aqui representados.
Temas e Abordagens Recorrentes
Além dos movimentos literários, o ENEM costuma abordar certos temas e habilidades de interpretação que perpassam as épocas e os estilos.
- Relação entre texto literário e contexto histórico-social: A capacidade de vincular a obra literária ao período em que foi produzida, entendendo como ela reflete ou questiona sua sociedade.
- Interpretação de diferentes gêneros textuais: Análise de poemas, contos, crônicas, romances, peças teatrais, entre outros, identificando suas características e intenções.
- Função da linguagem: Compreensão das funções poética, emotiva, referencial, conativa, fática e metalinguística na construção do sentido do texto.
- Recursos expressivos: Identificação e análise de figuras de linguagem (metáfora, metonímia, hipérbole, eufemismo, etc.), rimas, ritmos e outros elementos estilísticos.
- Diálogo intertextual: Reconhecimento de referências a outras obras, mitos ou eventos históricos presentes no texto.
Autores Essenciais para o ENEM
Certos autores são presenças quase garantidas nas provas, seja por sua representatividade nos movimentos literários, seja pela complexidade e relevância de suas obras.
| Autor | Movimento Literário | Obras Notáveis |
|---|---|---|
| Machado de Assis | Realismo | Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas |
| Carlos Drummond de Andrade | Modernismo (2ª Geração) | Sentimento do Mundo, A Rosa do Povo |
| Clarice Lispector | Modernismo (3ª Geração) | A Hora da Estrela, Laços de Família |
| Guimarães Rosa | Modernismo (3ª Geração) | Grande Sertão: Veredas, Primeiras Estórias |
| Manuel Bandeira | Modernismo (1ª Geração) | Libertinagem, Estrela da Manhã |
| Cecília Meireles | Modernismo (2ª Geração) | Romanceiro da Inconfidência, Viagem |
Exercícios com Gabarito
1. (ENEM-2022)
TEXTO I
Quando a Indústria Editorial passou a se preocupar com a vendagem, foi inevitável a reedição, com o mesmo apelo visual e até o mesmo nome, de volumes de autores consagrados do passado que haviam sido publicados décadas antes. Na capa, o mesmo retrato, a mesma mancha gráfica, as mesmas vinhetas. E, na parte de dentro, um texto que reproduzia o espírito da época, o modo como o autor imaginava seus leitores e as suas expectativas.
COSTA, Flávio. A invenção da literatura. Rio de Janeiro: FAPES, 2010 (adaptado).
TEXTO II
A vida em sociedade, segundo se vê, se organiza em instâncias que dialogam entre si. Uma delas é a da produção de livros, que nos fala do papel que cumprem autores, editores, leitores e do que estes esperam uns dos outros. É nesse cenário que o passado é reeditado, revigorado, relido, ressignificado. As obras literárias se atualizam, e seus leitores as encontram.
De acordo com os textos apresentados, a literatura clássica pode ser compreendida, no contexto da sociedade contemporânea, como um bem cultural que
- a) se mantém inalterável em suas características originais.
- b) revela a sua capacidade de se reinventar e se adaptar aos novos tempos.
- c) cumpre a função de resgatar uma identidade nacional em crise.
- d) perde a sua relevância ao se submeter às leis do mercado editorial.
- e) se restringe a um público específico de leitores especializados.
Resposta: Alternativa b: Os textos abordam como as obras literárias, mesmo as clássicas, são reeditadas e ressignificadas, mostrando sua capacidade de adaptação e reinvenção para novos públicos e contextos.
2. (ENEM-2021)
TEXTO I
O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985.
TEXTO II
O cão sem plumas
Um rio
sempre há
e um homem.
Em algum lugar um rio
e um homem
e um cão sem plumas.
CABRAL DE MELO NETO, J. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
A comparação entre os poemas “O bicho”, de Manuel Bandeira, e “O cão sem plumas”, de João Cabral de Melo Neto, revela uma crítica social que se manifesta
- a) no enfoque da degradação humana, comum aos dois textos.
- b) na denúncia da indiferença do ser humano em relação à miséria, presente apenas em “O bicho”.
- c) na utilização de imagens poéticas grandiosas, que contrastam com a sordidez da realidade, como em “O cão sem plumas”.
- d) na elaboração de um discurso poético que se distancia da realidade, característica do Modernismo.
- e) no tom esperançoso, que aponta para a superação da condição de miséria, marcante em ambos os poemas.
Resposta: Alternativa a: Ambos os poemas, de maneira direta ou simbólica, retratam a condição de degradação e miséria humana, seja pela animalização do homem em Bandeira, seja pela representação da desumanização e pobreza em Cabral.
3. (ENEM-2023)
TEXTO
No século XIX, o romance de formação, ou Bildungsroman, consolidou-se como um gênero literário. Nele, a narrativa acompanha o desenvolvimento psicológico, moral e social de um personagem desde a infância ou juventude até a vida adulta, abordando as experiências que o moldam.
No Brasil, um exemplo clássico desse gênero é Dom Casmurro, de Machado de Assis, que apresenta a trajetória de Bentinho, suas paixões, dilemas e a complexidade de suas relações.
A partir das características do Bildungsroman e do exemplo citado, qual aspecto a literatura brasileira aborda com recorrência nesse gênero?
- a) A crítica aos valores aristocráticos e a exaltação da vida rural.
- b) A formação da identidade nacional por meio de aventuras heróicas.
- c) A análise da sociedade burguesa e os conflitos individuais de seus membros.
- d) A busca por uma vida espiritual e o desapego dos bens materiais.
- e) A idealização do amor e a fuga da realidade social.
Resposta: Alternativa c: O Bildungsroman brasileiro, especialmente em autores como Machado de Assis, frequentemente se entrelaça com a crítica social, explorando a formação do indivíduo dentro das estruturas e conflitos da sociedade burguesa.
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