Erros comuns de concordância: descubra como evitá-los fácil

Língua Portuguesa

Erros comuns de concordância

A concordância, seja nominal ou verbal, é um dos pilares da norma culta da Língua Portuguesa. Dominá-la é essencial para uma comunicação clara e eficaz, especialmente em contextos acadêmicos e profissionais. Conhecer os erros mais frequentes é o primeiro passo para evitá-los e aprimorar a escrita.

Muitos estudantes e até mesmo falantes nativos tropeçam em algumas regras gramaticais que parecem simples, mas que escondem nuances importantes. Este artigo visa desmistificar esses equívocos mais comuns, apresentando exemplos práticos e soluções diretas para que você ganhe segurança ao construir suas frases.

Identificar e corrigir esses deslizes não só melhora a qualidade do texto, mas também transmite uma imagem de cuidado e domínio da língua. Vamos explorar os “vilões” da concordância e como vencê-los juntos.

Características da Concordância

A concordância, em termos gerais, é a relação de harmonia entre as palavras na frase, fazendo com que seus gêneros (masculino/feminino) e números (singular/plural) se ajustem. Ela se divide em dois tipos principais: nominal e verbal.

A concordância nominal ocorre entre o substantivo e seus determinantes (artigos, adjetivos, pronomes e numerais), garantindo que todos concordem em gênero e número. Já a concordância verbal estabelece a relação entre o verbo e o sujeito, fazendo com que o verbo varie para concordar com a pessoa e o número do sujeito.

Esses mecanismos garantem a coesão e a clareza do discurso, pois permitem que o leitor ou ouvinte identifique facilmente as relações sintáticas entre as palavras. Um erro de concordância pode alterar o sentido da frase ou torná-la confusa.

Erros Comuns de Concordância Nominal

A concordância nominal apresenta alguns pontos que geram muitas dúvidas e, consequentemente, erros frequentes. Um deles é a concordância de adjetivos com núcleos múltiplos.

Adjetivos com Núcleos Múltiplos

Quando um adjetivo se refere a dois ou mais núcleos substantivos, ele pode concordar com o núcleo mais próximo, se este vier antes, ou ir para o plural, concordando com todos. A regra mais segura e frequente é a concordância no plural.

Exemplo:

Recebi um elogio sincero e um presente valioso. (Concordância com o núcleo mais próximo: valioso com presente)

Outro exemplo:

Recebi um elogio sincero e um presente valioso.

Neste caso, o adjetivo “valioso” concorda apenas com o núcleo mais próximo (“presente”), que está no masculino singular. No entanto, a opção mais comum e frequentemente preferida é a concordância no plural, concordando com todos os núcleos.

Exemplo:

O relatório e a apresentação foram excelentes. (O adjetivo “excelentes” concorda com “relatório” e “apresentação”, ambos no plural)

Se o adjetivo vier antes dos substantivos, ele geralmente vai para o plural.

Exemplo:

Foi uma noite escura e fria.

Foi uma noite fria e escura.

Neste caso, se o adjetivo estiver antes dos substantivos, ele pode concordar com o mais próximo (se ambos estiverem no singular) ou ir para o plural. A opção mais comum é ir para o plural:

Exemplo:

Foram dias longos e difíceis.

O Problema da Palavra “Meio”

A palavra “meio” pode funcionar como advérbio ou como numeral. Quando funciona como advérbio, tem o sentido de “meia”, “metade” ou “um pouco”, sendo invariável. Quando funciona como numeral, concorda com o substantivo.

Exemplo (advérbio – invariável):

Ela estava meio cansada. (Sentido de “um pouco cansada”)

Chegamos meio-dia. (Sentido de “na metade do dia”)

Exemplo (numeral – variável):

Comi meia maçã. (Sentido de “metade da maçã”)

Precisamos de meia hora. (Sentido de “metade de uma hora”)

Um erro comum é usar “meia” antes de palavras masculinas, mesmo quando “meio” funciona como advérbio.

Exemplo incorreto: Ela estava meia confusa.

Exemplo correto: Ela estava meio confusa.

Concordância com “Bastante” e “Pouco”

Assim como “meio”, as palavras “bastante” e “pouco” são invariáveis quando funcionam como advérbios, intensificando adjetivos ou outros advérbios. Concordam em número quando funcionam como pronomes indefinidos ou determinativos.

Exemplo (advérbio – invariável):

Fiquei bastante feliz com o resultado. (Bastante intensifica “feliz”)

Havia pouca gente na festa. (Pouco intensifica “gente”)

Exemplo (pronome – variável):

Haviam bastantes livros na estante. (Bastantes refere-se a “livros”, concordando com ele)

Comprei poucas figurinhas. (Poucas refere-se a “figurinhas”, concordando com ela)

A confusão surge ao usar a forma invariável quando a palavra deveria variar, ou vice-versa. É importante analisar se a palavra está modificando um adjetivo/advérbio (invariável) ou se está substituindo um substantivo (variável).

Erros Comuns de Concordância Verbal

A concordância verbal é frequentemente palco de equívocos, especialmente com sujeitos compostos ou pospostos, e com verbos que indicam quantidade.

Sujeito Composto Anteposto e Posposto

Quando o sujeito composto vem antes do verbo, a regra geral é que o verbo vá para o plural. Se o sujeito composto vier depois do verbo, ele pode concordar com o núcleo mais próximo ou ir para o plural.

Exemplo (sujeito composto anteposto):

O menino e a menina brincavam no parque.

Exemplo (sujeito composto posposto):

Brincavam no parque o menino e a menina.

Brincava no parque o menino e a menina. (Concordância com o núcleo mais próximo: “menino”)

A concordância com o núcleo mais próximo, quando o sujeito composto é posposto, é uma opção válida, mas pode gerar ambiguidade se não for utilizada com cuidado.

Concordância com “Haver” e “Fazer” (Tempo Decorrido)

Os verbos “haver” (no sentido de existir) e “fazer” (indicando tempo decorrido) são impessoais, ou seja, não variam. Eles permanecem sempre na terceira pessoa do singular.

Exemplo (Haver – existir):

Havia muitos livros na biblioteca. (Correto)

Haviam muitos livros na biblioteca. (Incorreto)

Exemplo (Fazer – tempo decorrido):

Faz cinco anos que não o vejo. (Correto)

Fazem cinco anos que não o vejo. (Incorreto)

A dificuldade aqui é associar a ideia de pluralidade com a necessidade de o verbo permanecer no singular, devido à sua impessoalidade.

Concordância com Verbos de Ligação e Sujeito Oculto

Em alguns casos, a dificuldade reside em identificar corretamente o sujeito da oração, principalmente quando este é oculto ou quando há verbos de ligação.

Exemplo:

Chegou o novo gerente. (Sujeito: “o novo gerente”)

O verbo “chegou” concorda com “o novo gerente”. Um erro comum seria pluralizar o verbo por uma expectativa de ação coletiva, mas a gramática exige a concordância estrita com o sujeito.

Concordância com Palavras Indicando Quantidade

Verbos seguidos de expressões que indicam quantidade, como “mais de”, “menos de”, “cerca de”, geralmente concordam com o número que acompanha essas expressões.

Exemplo:

Mais de mil pessoas compareceram ao evento. (O verbo “compareceram” concorda com “mil pessoas”)

Cerca de cinquenta alunos foram aprovados. (O verbo “foram aprovados” concorda com “cinquenta alunos”)

Se a expressão for “mais de um”, o verbo pode ir para o plural ou concordar com “um”, mas o plural é mais comum em contextos formais.

Exemplo:

Mais de um candidato se inscreveu.

Mais de um candidato se inscreveram. (Ambas corretas, mas o plural é mais usual)

Exercícios com Gabarito

1. (ENEM-2022) Analise as frases abaixo sobre concordância:

  1. As pesquisas sobre a epidemia que assolaram a região demonstraram a gravidade da situação.
  2. O número de mortos na tragédia que atingiu o estado foi alarmante.
  3. Para evitar novos contágios, foram necessárias medidas rigorosas de isolamento social.
  • a) Apenas I está correta.
  • b) Apenas II está correta.
  • c) Apenas III está correta.
  • d) Apenas I e II estão corretas.
  • e) Apenas II e III estão corretas.

Resposta: Alternativa e: Na frase I, o verbo “assolaram” deveria concordar com “o número de mortos”, que é singular, tornando-se “assolou”. A frase II está correta, pois “o número” é o sujeito singular. Na frase III, o verbo “foram necessárias” concorda com “medidas rigorosas”, que é o sujeito posposto.

2. (VUNESP-2021) Assinale a alternativa em que a concordância nominal está aplicada corretamente:

  • a) Havia meia dúzia de pessoas interessadas.
  • b) Eles chegaram meio-dia, exaustos.
  • c) Precisamos de pouca atenção para entender.
  • d) Anexas ao documento, seguem cópias.
  • e) É proibido entrada de animais.

Resposta: Alternativa d: Na alternativa “a”, o correto seria “meia dúzia” (numeral). Na “b”, “meio-dia” está correto como advérbio. Na “c”, “pouca atenção” está correto. Na “e”, “proibida” deve concordar com “entrada” (feminino). Na alternativa “d”, “anexas” concorda com “cópias” (sujeito posposto e feminino).

3. (FGV-2020) Qual das frases apresenta um erro de concordância verbal?

I. Falaram dele durante horas, mas os resultados foram poucas.

II. Faz muitos anos que estudo para concursos.

III. Houve momentos em que duvidei de tudo.

IV. Chegou os novos modelos de celular.

  • a) Apenas I.
  • b) Apenas IV.
  • c) Apenas I e IV.
  • d) Apenas II e III.
  • e) Todas estão corretas.

Resposta: Alternativa c: Na frase I, “poucas” deveria concordar com “resultados” (masculino), tornando-se “poucos”. Na frase IV, o verbo “chegou” deveria estar no plural (“chegaram”) para concordar com o sujeito posposto “os novos modelos de celular”. As frases II e III estão corretas, pois “faz” e “houve” (no sentido de existir) são impessoais e ficam no singular.

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