Trovadorismo: características
O Trovadorismo é o movimento literário que marcou o período medieval, especialmente entre os séculos IX e XV, e se caracteriza por uma poesia escrita em língua galego-portuguesa. Ele floresceu em um contexto social e político muito específico, ligado às cortes feudais e à figura do trovador.
Este movimento é fundamental para entendermos as origens da poesia em língua portuguesa, servindo como base para o desenvolvimento posterior da nossa literatura. Compreender suas características nos ajuda a decifrar os valores, a visão de mundo e as formas de expressão da Idade Média.
O estudo do Trovadorismo é essencial para estudantes que se preparam para vestibulares e o ENEM, pois frequentemente aparece em questões sobre literatura medieval e a formação da língua portuguesa.
Características do Trovadorismo
As principais características do Trovadorismo são:
- Lirismo: Expressão de sentimentos, emoções e visões de mundo.
- Musicalidade: A poesia era feita para ser cantada ou recitada ao som de instrumentos musicais.
- Uso do Galego-Português: A língua utilizada era uma forma arcaica do português, comum na Península Ibérica.
- Temática Variada: Abordagem de temas como amor, guerra, política e sátira social.
- Mester de Juglaria e Mester de Clerecia: Duas vertentes distintas de produção literária.
- Estrutura Fixa: Muitas composições seguem formas poéticas estabelecidas.
Mester de Juglaria e Mester de Clerecia
No Trovadorismo, duas formas principais de produção literária se destacam: o Mester de Juglaria e o Mester de Clerecia.
Mester de Juglaria
O Mester de Juglaria, ou “ofício dos jograis”, era a produção literária dos jograis, artistas itinerantes que se apresentavam em público. Suas obras eram:
- Populares e Orais: Destinadas a um público mais amplo, frequentemente cantadas ou recitadas.
- Temas Heroicos e Lirismo Amoroso: Narrativas de feitos heroicos (cantigas de gesta) ou expressão de sentimentos amorosos de forma mais direta.
- Linguagem Simples: Uso de vocabulário acessível e estrutura menos formal.
- Foco na Narrativa: As cantigas de amigo, um dos tipos mais representativos, expressam o lamento de uma donzela pela ausência do seu amado.
Exemplo de Cantiga de Amigo (versos):
Ai, Deus, que me fez? E que mal me fez?
Que o meu amigo em terra me deixou!
(Adaptado de um exemplo genérico)
Mester de Clerecia
O Mester de Clerecia, ou “ofício dos clérigos”, era produzido por intelectuais e religiosos, com maior preocupação com a forma e a erudição. Suas obras eram:
- Escritas e Cultas: Destinadas a um público letrado, com foco na transmissão de conhecimento e valores morais.
- Temas Religiosos e Morais: Narrativas bíblicas, vidas de santos, e reflexões sobre a moralidade.
- Linguagem Elaborada: Uso de vocabulário mais rico e complexo, com métrica e rima mais rigorosas.
- Foco na Doutrinação: Transmissão de ensinamentos religiosos e filosóficos.
Exemplo de Mester de Clerecia (tema genérico):
Contam-se vidas de santos, milagres divinos,
Com versos que elevam o espírito aos celestiais destinos.
(Adaptado de um exemplo genérico)
Principais Gêneros Poéticos
Dentro do Trovadorismo, destacam-se as cantigas líricas, divididas em dois grandes grupos: as cantigas de amor e as cantigas de amigo, além das cantigas satíricas.
Cantigas Líricas
Cantigas de Amor
Nelas, o eu lírico é um homem que expressa seu amor por uma dama de condição social superior, geralmente inatingível. O tom é de sofrimento, angústia e submissão, com a presença constante da figura da coita (sofrimento amoroso).
- Eu lírico masculino: Voz que expressa os sentimentos.
- Amor platônico e idealizado: A dama é vista como um ser superior.
- Coita de amor: Sentimento de dor e sofrimento pela impossibilidade do amor.
- Vassalagem amorosa: O homem se coloca como vassalo da dama.
- Cenário cortês: Frequentemente ambientadas em castelos ou cortes.
Exemplo de Versos (Cantiga de Amor):
Senhora, pois que a vossa alta beleza
Me fez cativo em tamanha aspereza,
Sem vós, eu morro em triste solidão,
Pois todo o meu querer é vossa servidão.
Cantigas de Amigo
São composições em que o eu lírico é feminino, geralmente uma jovem, que lamenta a ausência ou a partida do seu amado. O tom é de saudade, tristeza e, por vezes, esperança.
- Eu lírico feminino: Voz de uma donzela.
- Lamento pela ausência do amado: Expressa a dor da separação.
- Natureza como confidente: A jovem frequentemente dialoga com a natureza para expressar seus sentimentos.
- Linguagem mais simples e direta: Transmite a emoção de forma mais espontânea.
Exemplo de Versos (Cantiga de Amigo):
Minha mãe, que me cria,
Oh! muito me quis bem;
Deu-me um filho, que eu amei,
Por quem sentia um grande bem.
Cantigas Satíricas
Estas cantigas tinham um caráter mais crítico e humorístico, voltadas para a ridicularização de costumes, comportamentos ou pessoas. Dividem-se em dois tipos:
Cantiga de Escárnio
Utiliza um tom mais irônico e indireto para criticar. A zombaria é feita de forma sutil, sem palavrões ou ofensa direta, mas deixando a crítica clara para o ouvinte atento.
- Crítica indireta e irônica: A zombaria é feita de forma velada.
- Linguagem polida: Evita termos grosseiros.
- Ambiguidade: Permite duplo sentido.
Exemplo (abordagem de crítica a um fidalgo):
Este fidalgo que tanto se engrandece,
Com suas vestes de seda que reluz e tece,
Não sabe que sua riqueza é mera aparência,
Escondendo vaidade e pouca decência.
Cantiga de Maldizer
É a crítica direta e agressiva, utilizando linguagem chula, palavrões e ofensas explícitas contra a pessoa ou o tema criticado.
- Crítica direta e agressiva: Usa ofensas e palavrões.
- Linguagem grosseira: Vocabulário chulo e vulgar.
- Objetivo de ofender: Busca denegrir a imagem do criticado.
Exemplo (abordagem de crítica a um clérigo):
Aquele padre que anda pela vila,
Com seu cinismo e sua fala hostil,
É um hipócrita, um lobo em pele de ovelha,
Enganando a todos com sua falsa centelha.
Trovadorismo no Contexto da Literatura Portuguesa
O Trovadorismo é o marco inicial da literatura produzida em língua galego-portuguesa e, consequentemente, da literatura portuguesa. As cantigas trovadorescas foram os primeiros registros poéticos em nossa língua, servindo de base para o desenvolvimento da lírica e da prosa nos séculos seguintes.
Sua importância reside na consolidação da língua e na expressão de uma cultura que começava a se formar, refletindo os costumes, os valores e as paixões da sociedade medieval europeia e peninsular.
Exercícios com Gabarito
1. (ENEM – Adaptado) O Trovadorismo, período literário que se estendeu aproximadamente do século IX ao XV, é conhecido pela produção poética em língua galego-portuguesa. Entre os gêneros mais representativos, destacam-se as cantigas líricas e satíricas. As cantigas de amor e de amigo são exemplos de lirismo medieval. Sobre as características das cantigas de amor, assinale a alternativa correta:
- a) O eu lírico é uma donzela que lamenta a ausência de seu amado, com frequente diálogo com a natureza.
- b) O eu lírico é masculino e expressa um amor idealizado e sofrido por uma dama de condição social superior, com um tom de vassalagem amorosa.
- c) A crítica social é o foco principal, utilizando linguagem irônica e indireta para ridicularizar costumes.
- d) A temática é predominantemente religiosa, com narrativas de vidas de santos e preceitos morais.
- e) A linguagem é popular e oral, com foco em narrativas heroicas e feitos de cavaleiros.
Resposta: Alternativa b: As cantigas de amor apresentam um eu lírico masculino que se coloca em posição de subserviência amorosa a uma dama idealizada e inatingível, expressando sofrimento e desejo.
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2. (VESTIBULAR – Adaptado) Leia os versos abaixo:
“Ai, que mofino quero eu andar!
E muito me doerá um desamor.
Pois nunca vi eu tal desaventura
Em meu senhor
Por erro que me fizo em meu malor.”
Esses versos, que expressam o sofrimento de um eu lírico pela ausência ou desamor de seu “senhor”, são característicos de qual gênero trovadoresco?
- a) Cantiga de maldizer
- b) Cantiga de escárnio
- c) Cantiga de amor
- d) Cantiga de amigo
- e) Cantiga de gesta
Resposta: Alternativa c: Os versos evidenciam o “desamor” e a “desaventura” de um eu lírico que se dirige a um “senhor”, características centrais das cantigas de amor, onde o sofrimento amoroso e a vassalagem são temas recorrentes.